21-04-2008, 11:26 AM
O nosso convidado deste mês é Alvaro Costa, 66 anos, actualmente reformado a sua última actividade foi de formador em HST. O seu percurso profissional foi durante, cerca de 30 anos ligado à comercialização de equipamentos de protecção individual. Casado com dois filhos (um casal), reside no norte do País e por ser um leitor assíduo e critico da nossa página decidimos convidá-lo a participar como convidado.
A inversão dos tempos em que normalmente se trabalha, come e dorme dá origem a alterações fisiológicas. A actividade durante a noite colide com o ritmo biológico fundamental, o ritmo sono-vigília (alinhado pelo ciclo solar noite-dia), que determina períodos de máxima sonolência entre as 3 e as 6 horas da madrugada.
O trabalhador tem de permanecer acordado numa altura em que se verificam baixos níveis de activação fisiológica, de atenção e de eficiência comportamental.
Tanto os turnos da noite, como os turnos que começam demasiado cedo de manhã, levam a um encurtamento do tempo de sono de 2 a 4 horas por dia, porque a hora do dia a que o trabalhador se deita é muito diferente da hora convencional, e pouco propícia para dormir. O trabalho é habitualmente precedido de um período acordado mais extenso do que o que antecede os turnos da manhã e da tarde. A privação do sono provoca uma queda pronunciada do estado de vigília e do desempenho no trabalho.
Numa sociedade de orientação predominantemente diurna, os trabalhadores por turnos sofrem uma rotura dos seus padrões sociais, incluindo a vida familiar e doméstica.
Consequências sobre a Segurança
"Na perspectiva da segurança a sonolência pode ser encarada como uma falha do cérebro humano que está programada para ocorrer de forma regular" (Dinges, 1994).
A sonolência/fadiga no turno da noite, referida pela esmagadora maioria dos trabalhadores, reflecte-se no desempenho, dependendo criticamente de certas características da tarefa: duração, monotonia, ritmo e previsibilidade de sinais.
O trabalhador faz "micro-sonos", associados a lapsos durante os quais não realiza a sua tarefa adequadamente, com repercussões óbvias sobre a produtividade e a segurança. No turno da noite, o erro humano é duas vezes maior e a produtividade é entre 30% e 40% menor.
Há uma clara variação do risco de acidentes de trabalho com a hora do dia, sendo 30% a 50% superior durante a noite. Nos EUA, as estimativas indicam que 52,5% dos acidentes de trabalho estão relacionados com o sono. A mesma causa é atribuída às catástrofes industriais como Bhopal, Exxon-Valdez, Three Mile Island, Chernobyl e a do space-shuttle Challenger.
Abordagem ergonómica
A existência de turnos, só por si, constitui indicação da necessidade de avaliação ergonómica de sistemas e postos de trabalho, incidindo sobre os seguintes factores, numa perspectiva de antecipação:
- As condições do ambiente físico, incluindo a presença de solventes químicos causando sonolência, o ruído, vibrações, luz e ambiente térmico, todos eles provocando monotonia, e que podem ser propiciadores de risco quando associados ao trabalho nocturno;
- - Os factores de fadiga dentro e fora do emprego, estabelecendo a programação do melhor sistema de turnos, prevendo a possibilidade de pequenas sestas e de pausas para ingestão adequada de alimentos e de cafeína;
- A carga de trabalho, considerando que pode ser superior, para a mesma actividade, à executada em condições diurnas;
- - O conteúdo da tarefa, prevendo uma maior activação, estimulando a rotação, promovendo o enriquecimento, a motivação e o controlo activo, bem como a actividade física e a interacção social;
- Os factores sociais e do meio ambiente;
- - A reavaliação periódica de todos os aspectos referidos. Face a sinais de intolerância por parte dos trabalhadores, ou a risco evidente de segurança, a intervenção ergonómica, na impossibilidade de alterar o processo ou de fazer a re-concepção do equipamento ou do posto de trabalho, consistirá na mudança do trabalhador para turnos de dia, na alteração do sistema de turnos, e/ou na adopção de medidas de educação do trabalhador com vista a modificar o seu comportamento.
- A concepção de um sistema de turnos deve ser um compromisso entre os objectivos do empregador, os desejos dos empregados e as recomendações ergonómicas. Estas podem resumir-se ao seguinte:
- Redução ao mínimo possível do trabalho nocturno;
- Preferir os sistemas de rotação rápida;
- Evitar o início muito cedo do turno da manhã;
- E evitar sequências rápidas, isto é, com um intervalo de apenas 8 horas;
- Nº de dias consecutivos de trabalho limitado a 5 a 7 dias, no máximo – Folga com um mínimo de 2 dias de duração;
- Preferir rotação "para a frente", isto é, que atrasa a fase (Manhã Tarde Noite);
- Turnos prolongados, com 9 a 12 horas, só em condições excepcionais bem definidas;
- A estratégia de implementação é importante para a aceitação dos trabalhadores.
Os estudos sobre o "empenhamento" no trabalho por turnos demonstraram que os próprios trabalhadores por si têm um importante papel na sua melhor ou pior saúde. Este facto vem apoiar a importância da educação dos trabalhadores.
Estas intervenções devem fornecer informação mínima sobre fisiologia e higiene do sono, e orientação geral do estilo de vida com vista à melhoria das perturbações extra-laborais, referindo concretamente:
- A organização do tempo destinado a dormir (incluindo as rotinas ao deitar e as condições de isolamento luminoso e sonoro). Nas mudanças de turno Noite Folga dormir apenas 2 horas a seguir ao turno da noite, passar o resto do turno acordado, e ir para a cama só à noite;
- O timing do exercício físico (aconselhável 20 minutos antes do início do turno; nunca no período de 3 horas que antecede o sono);
- - As sestas, que devem ser de ± 30 minutos (incluindo no trabalho, deixando 15 minutos adicionais antes de recomeçar o trabalho);
- - O timing da ingestão de cafeína (em doses moderadas no início do turno da noite);
- - A composição das refeições e sua distribuição no tempo (pequenas, leves, com algum açúcar durante o turno, evitando álcool e drogas);
- - A promoção de actividades sociais e troca de experiências entre indivíduos com o mesmo esquema de turnos.
Fonte: E-Newsletter de Higiene Saúde & Segurança no Trabalho nr. 58
Alvaro Costa
A inversão dos tempos em que normalmente se trabalha, come e dorme dá origem a alterações fisiológicas. A actividade durante a noite colide com o ritmo biológico fundamental, o ritmo sono-vigília (alinhado pelo ciclo solar noite-dia), que determina períodos de máxima sonolência entre as 3 e as 6 horas da madrugada.
O trabalhador tem de permanecer acordado numa altura em que se verificam baixos níveis de activação fisiológica, de atenção e de eficiência comportamental.
Tanto os turnos da noite, como os turnos que começam demasiado cedo de manhã, levam a um encurtamento do tempo de sono de 2 a 4 horas por dia, porque a hora do dia a que o trabalhador se deita é muito diferente da hora convencional, e pouco propícia para dormir. O trabalho é habitualmente precedido de um período acordado mais extenso do que o que antecede os turnos da manhã e da tarde. A privação do sono provoca uma queda pronunciada do estado de vigília e do desempenho no trabalho.
Numa sociedade de orientação predominantemente diurna, os trabalhadores por turnos sofrem uma rotura dos seus padrões sociais, incluindo a vida familiar e doméstica.
Consequências sobre a Segurança
"Na perspectiva da segurança a sonolência pode ser encarada como uma falha do cérebro humano que está programada para ocorrer de forma regular" (Dinges, 1994).
A sonolência/fadiga no turno da noite, referida pela esmagadora maioria dos trabalhadores, reflecte-se no desempenho, dependendo criticamente de certas características da tarefa: duração, monotonia, ritmo e previsibilidade de sinais.
O trabalhador faz "micro-sonos", associados a lapsos durante os quais não realiza a sua tarefa adequadamente, com repercussões óbvias sobre a produtividade e a segurança. No turno da noite, o erro humano é duas vezes maior e a produtividade é entre 30% e 40% menor.
Há uma clara variação do risco de acidentes de trabalho com a hora do dia, sendo 30% a 50% superior durante a noite. Nos EUA, as estimativas indicam que 52,5% dos acidentes de trabalho estão relacionados com o sono. A mesma causa é atribuída às catástrofes industriais como Bhopal, Exxon-Valdez, Three Mile Island, Chernobyl e a do space-shuttle Challenger.
Abordagem ergonómica
A existência de turnos, só por si, constitui indicação da necessidade de avaliação ergonómica de sistemas e postos de trabalho, incidindo sobre os seguintes factores, numa perspectiva de antecipação:
- As condições do ambiente físico, incluindo a presença de solventes químicos causando sonolência, o ruído, vibrações, luz e ambiente térmico, todos eles provocando monotonia, e que podem ser propiciadores de risco quando associados ao trabalho nocturno;
- - Os factores de fadiga dentro e fora do emprego, estabelecendo a programação do melhor sistema de turnos, prevendo a possibilidade de pequenas sestas e de pausas para ingestão adequada de alimentos e de cafeína;
- A carga de trabalho, considerando que pode ser superior, para a mesma actividade, à executada em condições diurnas;
- - O conteúdo da tarefa, prevendo uma maior activação, estimulando a rotação, promovendo o enriquecimento, a motivação e o controlo activo, bem como a actividade física e a interacção social;
- Os factores sociais e do meio ambiente;
- - A reavaliação periódica de todos os aspectos referidos. Face a sinais de intolerância por parte dos trabalhadores, ou a risco evidente de segurança, a intervenção ergonómica, na impossibilidade de alterar o processo ou de fazer a re-concepção do equipamento ou do posto de trabalho, consistirá na mudança do trabalhador para turnos de dia, na alteração do sistema de turnos, e/ou na adopção de medidas de educação do trabalhador com vista a modificar o seu comportamento.
- A concepção de um sistema de turnos deve ser um compromisso entre os objectivos do empregador, os desejos dos empregados e as recomendações ergonómicas. Estas podem resumir-se ao seguinte:
- Redução ao mínimo possível do trabalho nocturno;
- Preferir os sistemas de rotação rápida;
- Evitar o início muito cedo do turno da manhã;
- E evitar sequências rápidas, isto é, com um intervalo de apenas 8 horas;
- Nº de dias consecutivos de trabalho limitado a 5 a 7 dias, no máximo – Folga com um mínimo de 2 dias de duração;
- Preferir rotação "para a frente", isto é, que atrasa a fase (Manhã Tarde Noite);
- Turnos prolongados, com 9 a 12 horas, só em condições excepcionais bem definidas;
- A estratégia de implementação é importante para a aceitação dos trabalhadores.
Os estudos sobre o "empenhamento" no trabalho por turnos demonstraram que os próprios trabalhadores por si têm um importante papel na sua melhor ou pior saúde. Este facto vem apoiar a importância da educação dos trabalhadores.
Estas intervenções devem fornecer informação mínima sobre fisiologia e higiene do sono, e orientação geral do estilo de vida com vista à melhoria das perturbações extra-laborais, referindo concretamente:
- A organização do tempo destinado a dormir (incluindo as rotinas ao deitar e as condições de isolamento luminoso e sonoro). Nas mudanças de turno Noite Folga dormir apenas 2 horas a seguir ao turno da noite, passar o resto do turno acordado, e ir para a cama só à noite;
- O timing do exercício físico (aconselhável 20 minutos antes do início do turno; nunca no período de 3 horas que antecede o sono);
- - As sestas, que devem ser de ± 30 minutos (incluindo no trabalho, deixando 15 minutos adicionais antes de recomeçar o trabalho);
- - O timing da ingestão de cafeína (em doses moderadas no início do turno da noite);
- - A composição das refeições e sua distribuição no tempo (pequenas, leves, com algum açúcar durante o turno, evitando álcool e drogas);
- - A promoção de actividades sociais e troca de experiências entre indivíduos com o mesmo esquema de turnos.
Fonte: E-Newsletter de Higiene Saúde & Segurança no Trabalho nr. 58
Alvaro Costa