11-09-2007, 10:32 PM
Chamo-me Ana Monteiro, tenho 45 anos, sou casada e tenho uma filha. Sou licenciada em Economia pelo ISEG e sou funcionária de uma das maiores instituições financeiras do País. Trabalho numa área que pouco ou nada tem a ver com a actividade “tradicional” de um banco, de carácter social que tem por objectivo facultar o acesso à informação e ao conhecimento a todos os que dela necessitam.
POR ESSE MUNDO FORA …
Como devem imaginar, não é muito fácil para uma bancária escrever sobre segurança, ou insegurança. Obviamente que o texto não tem um carácter técnico, apenas e somente relatará pequenos episódios vividos ao longo da minha vida profissional. Só mesmo o meu grande amigo Júlio se lembraria de me fazer semelhante convite.
Disse-vos, na minha pequena nota biográfica, que exerço a minha actividade profissional numa das maiores instituições financeiras deste país, que também opera por esse mundo fora. A minha área de trabalho tem uma vertente elevada de responsabilidade social e é exercida não só em Portugal mas também noutros países, cujas carências nesta área são enormes, o que me obriga (mas que obrigação tão gratificante!!!) a fazer deslocações com regularidade a estes países (Cabo Verde, S. Tomé, Moçambique, Timor Leste).
Para além da aprendizagem constante sobre estes povos, cada nova viagem é uma nova aventura, cada nova estrutura que inauguramos é um novo desafio.
Não adianta querermos fazer projectos “fotocopiados” daqueles que fazemos em Portugal. Não dá, simplesmente não funciona. De que me adianta comprar em Portugal um sistema anti-furto (não interessa de quê) ou um sistema de videovigilância, se depois não existem localmente empresas capazes de assegurar a sua reparação e manutenção? De que me adianta ter esses equipamentos quando os instalo num pais em que os cortes de energia são constantes, o que leva à avaria dos mesmos?
Claro que não são estes contratempos que nos levam a desistir de trabalhar em prol daqueles que pouco ou nada têm. Há sempre um lado positivo de ver as coisas, ou seja, não funciona mas uma vez instalado e porque as pessoas não sabem que não funciona, constitui sempre um factor de dissuasão para os “mãozinhas de veludo”. E depois podemos sempre contar com os “carolas”, com jeitinho para a coisa, que conseguem reparar os equipamentos e pô-los de novo a funcionar. Profissionais? Não, esses são raros e quase sempre sem qualidade.
E perguntam vocês, cuja curiosidade vos levou a ler o meu texto, se alguma vez me senti insegura nestas minhas viagens. Sinceramente, não, apesar de ter consciência que no meu lugar algumas pessoas pensariam o contrário. Vejamos 2 exemplos.
São Tomé, país lindo, com paisagens exuberantes, pessoas educadas e afáveis, onde as estradas são um caos e as falhas de energia uma constante, nomeadamente nas ruas. Agora imaginem que estão no centro da cidade e precisam de se deslocar até ao hotel que fica, sensivelmente, a 200 m, e não têm carro para se deslocarem. O que fazer? Simplificando, temos 2 alternativas, ou apanhamos um táxi ou vamos a pé. Simples, não vos parece? Errado. Muito errado e passo a explicar. Em S. Tomé existem dezenas de táxis amarelos, mas que não circulam na cidade à procura de clientes. Concentram-se de forma perfeitamente catastrófica na praça do mercado, que fica no lado oposto ao do hotel, ou seja, a mais de 500 m do sítio onde me encontro, logo é uma opção pouco inteligente para quem precisa de fazer apenas 200 m.
Então se esta opção é pouco inteligente vamos a pé, afinal são só!!! 200 m. Pois é, 200 m que parecem quilómetros. A rua que me leva ao hotel é uma das mais importantes da cidade. É larga, com um passeio no centro das faixas de rodagem, frondosas árvores nos passeios laterais e 3 rotundas, que se faz perfeitamente durante o dia mas que de noite se complica. E complica-se porquê? Em primeiro lugar porque não há luz eléctrica, depois porque as raízes das árvores rebentaram com os passeios, depois porque muita gente circula de bicicleta sem faróis e sem reflectores e finalmente porque os buracos nos passeios e na estrada são mais que muitos. Apesar de tudo, esta é a alternativa que escolho. Segurança? Pouca ou nenhuma, mas as alternativas também não mudam nada.
Vamos agora mudar de continente. Depois de uma viagem de quase 2 dias de avião e 3 escalas para fazer, com segurança mais ou menos apertada nos aeroportos, consoante estamos em Amesterdão ou Singapura, ou se já estamos em Bali, eis-me, finalmente, em Díli, Timor Leste.
A emoção é muita, o coração bate forte. O cheiro a queimado ainda é intenso, mas o sorriso nos rostos de quem me recebe apaga as imagens da destruição. Segurança apertada em todo o percurso até ao centro da cidade, que pode, nalguns casos, não se ver mas sente-se. Há forças das Nações Unidas por todo o lado.
Depois de devidamente instalada num barco-hotel, fundeado na baía de Díli, decidi dar um passeio pela cidade, a pé. Nada melhor do que andar a pé para ver a realidade. Os sinais de destruição ainda são visíveis mas mais uma vez sou abordada na rua, cumprimentada num português perfeito, e sempre iluminada pelo sorriso inconfundível dos timorenses. Num dos cruzamentos mais movimentados, um polícia sinaleiro (que saudades!!!!), impecavelmente fardado, em cima de um palanque a comandar o trânsito, em gestos que mais parecia uma dança. Lindo!!!!
Voltei a Díli, pelo menos, mais meia dúzia de vezes, atravessei o País vezes sem conta e, mesmo depois da saída das forças das Nações Unidas nunca me senti insegura. Nunca tive medo de percorrer aquelas ruas a pé. Ir tomar o meu cafezinho ao City Café ou ao Hotel Timor é passeio habitual. E hoje? Não sei. Sinceramente não sei. Conto fazer essa experiência daqui a 2 meses. Do fundo do coração espero sentir-me em casa como sempre me senti.
Muitas mais histórias haveria para contar mas, obviamente, não o vou fazer. Amo apaixonadamente o que faço, por isso me considero uma privilegiada e não trocaria este trabalho por outro, mesmo que fosse mais bem remunerado. O dinheiro, sinceramente, não é tudo.
POR ESSE MUNDO FORA …
Como devem imaginar, não é muito fácil para uma bancária escrever sobre segurança, ou insegurança. Obviamente que o texto não tem um carácter técnico, apenas e somente relatará pequenos episódios vividos ao longo da minha vida profissional. Só mesmo o meu grande amigo Júlio se lembraria de me fazer semelhante convite.
Disse-vos, na minha pequena nota biográfica, que exerço a minha actividade profissional numa das maiores instituições financeiras deste país, que também opera por esse mundo fora. A minha área de trabalho tem uma vertente elevada de responsabilidade social e é exercida não só em Portugal mas também noutros países, cujas carências nesta área são enormes, o que me obriga (mas que obrigação tão gratificante!!!) a fazer deslocações com regularidade a estes países (Cabo Verde, S. Tomé, Moçambique, Timor Leste).
Para além da aprendizagem constante sobre estes povos, cada nova viagem é uma nova aventura, cada nova estrutura que inauguramos é um novo desafio.
Não adianta querermos fazer projectos “fotocopiados” daqueles que fazemos em Portugal. Não dá, simplesmente não funciona. De que me adianta comprar em Portugal um sistema anti-furto (não interessa de quê) ou um sistema de videovigilância, se depois não existem localmente empresas capazes de assegurar a sua reparação e manutenção? De que me adianta ter esses equipamentos quando os instalo num pais em que os cortes de energia são constantes, o que leva à avaria dos mesmos?
Claro que não são estes contratempos que nos levam a desistir de trabalhar em prol daqueles que pouco ou nada têm. Há sempre um lado positivo de ver as coisas, ou seja, não funciona mas uma vez instalado e porque as pessoas não sabem que não funciona, constitui sempre um factor de dissuasão para os “mãozinhas de veludo”. E depois podemos sempre contar com os “carolas”, com jeitinho para a coisa, que conseguem reparar os equipamentos e pô-los de novo a funcionar. Profissionais? Não, esses são raros e quase sempre sem qualidade.
E perguntam vocês, cuja curiosidade vos levou a ler o meu texto, se alguma vez me senti insegura nestas minhas viagens. Sinceramente, não, apesar de ter consciência que no meu lugar algumas pessoas pensariam o contrário. Vejamos 2 exemplos.
São Tomé, país lindo, com paisagens exuberantes, pessoas educadas e afáveis, onde as estradas são um caos e as falhas de energia uma constante, nomeadamente nas ruas. Agora imaginem que estão no centro da cidade e precisam de se deslocar até ao hotel que fica, sensivelmente, a 200 m, e não têm carro para se deslocarem. O que fazer? Simplificando, temos 2 alternativas, ou apanhamos um táxi ou vamos a pé. Simples, não vos parece? Errado. Muito errado e passo a explicar. Em S. Tomé existem dezenas de táxis amarelos, mas que não circulam na cidade à procura de clientes. Concentram-se de forma perfeitamente catastrófica na praça do mercado, que fica no lado oposto ao do hotel, ou seja, a mais de 500 m do sítio onde me encontro, logo é uma opção pouco inteligente para quem precisa de fazer apenas 200 m.
Então se esta opção é pouco inteligente vamos a pé, afinal são só!!! 200 m. Pois é, 200 m que parecem quilómetros. A rua que me leva ao hotel é uma das mais importantes da cidade. É larga, com um passeio no centro das faixas de rodagem, frondosas árvores nos passeios laterais e 3 rotundas, que se faz perfeitamente durante o dia mas que de noite se complica. E complica-se porquê? Em primeiro lugar porque não há luz eléctrica, depois porque as raízes das árvores rebentaram com os passeios, depois porque muita gente circula de bicicleta sem faróis e sem reflectores e finalmente porque os buracos nos passeios e na estrada são mais que muitos. Apesar de tudo, esta é a alternativa que escolho. Segurança? Pouca ou nenhuma, mas as alternativas também não mudam nada.
Vamos agora mudar de continente. Depois de uma viagem de quase 2 dias de avião e 3 escalas para fazer, com segurança mais ou menos apertada nos aeroportos, consoante estamos em Amesterdão ou Singapura, ou se já estamos em Bali, eis-me, finalmente, em Díli, Timor Leste.
A emoção é muita, o coração bate forte. O cheiro a queimado ainda é intenso, mas o sorriso nos rostos de quem me recebe apaga as imagens da destruição. Segurança apertada em todo o percurso até ao centro da cidade, que pode, nalguns casos, não se ver mas sente-se. Há forças das Nações Unidas por todo o lado.
Depois de devidamente instalada num barco-hotel, fundeado na baía de Díli, decidi dar um passeio pela cidade, a pé. Nada melhor do que andar a pé para ver a realidade. Os sinais de destruição ainda são visíveis mas mais uma vez sou abordada na rua, cumprimentada num português perfeito, e sempre iluminada pelo sorriso inconfundível dos timorenses. Num dos cruzamentos mais movimentados, um polícia sinaleiro (que saudades!!!!), impecavelmente fardado, em cima de um palanque a comandar o trânsito, em gestos que mais parecia uma dança. Lindo!!!!
Voltei a Díli, pelo menos, mais meia dúzia de vezes, atravessei o País vezes sem conta e, mesmo depois da saída das forças das Nações Unidas nunca me senti insegura. Nunca tive medo de percorrer aquelas ruas a pé. Ir tomar o meu cafezinho ao City Café ou ao Hotel Timor é passeio habitual. E hoje? Não sei. Sinceramente não sei. Conto fazer essa experiência daqui a 2 meses. Do fundo do coração espero sentir-me em casa como sempre me senti.
Muitas mais histórias haveria para contar mas, obviamente, não o vou fazer. Amo apaixonadamente o que faço, por isso me considero uma privilegiada e não trocaria este trabalho por outro, mesmo que fosse mais bem remunerado. O dinheiro, sinceramente, não é tudo.