Júlio Santos
CONSEQUÊNCIAS DOS ACIDENTES DE TRABALHO PARA A FAMÍLIA… UM ESTUDO EM PROGRESSO - Versão de Impressão

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CONSEQUÊNCIAS DOS ACIDENTES DE TRABALHO PARA A FAMÍLIA… UM ESTUDO EM PROGRESSO - Júlio Santos - 05-12-2008

Num apontamento anterior reflectimos um pouco sobre as possíveis consequências que o acidente de trabalho pode ter na família. Entretanto tenho estado a realizar um estudo que aborda esta temática. Realizei 4 entrevistas a 4 casais, nos quais os maridos sofreram um acidente de trabalho. No apontamento de hoje gostaria de partilhar convosco a experiência de dois destes casais.

CASAL X
Este casal está casado há 27 anos, tem dois filhos (18 e 27 anos). O sinistrado tem 49 anos e é motorista (era motorista de pesados e devido ao acidente actualmente é motorista de ligeiros), a esposa tem 44 anos e é doméstica.

Algumas informações sobre o acidente…
- Acidente: Queda de 5/6 metros de altura
- Consequências físicas: Traumatismo craniano, surdez do ouvido esquerdo, falta de força na mão direita, amnésia temporária, perda de paladar e cheiro, em coma um mês
- Há quanto tempo foi: 24 meses
- Baixa: 300 dias
- % Incapacidade: 37,34

O casal relatou que o acidente teve impacto, quer na mulher, quer nos filhos, em última análise em toda a família:
- Impacto na mulher: “Foi mau … eu não dormia …” (Mulher)
- Impacto nos filhos: “E mesmo o mais velho … perdeu o ano nesse ano … nunca tinha chumbado um ano …“ (Mulher)
- Impacto na família: “Não nos diziam nada … está a fazer exames … está a fazer não sei o quê … e nós ali à espera … e quando o vimos … tinha os olhos inchados … assim todo partido da cintura para cima … todo ligado às máquinas … o braço partido, a perna partida … a cara dele estava toda inchada … os olhos pretos … e o nariz … é horrível …um mês … cada dia a caminharmos para lá …” (Mulher)

O acidente produziu um conjunto de mudanças para esta família e sinistrado:
- Mudanças profissionais: “A minha vida profissional mudou … porque eu não posso fazer aquilo que eu fazia …“ (Marido)
- Mudanças na mobilidade: “…eu fazia tudo e mais alguma coisa … e agora há certas coisas que eu não posso fazer … Mesmo em casa…” (Marido)
- Mudanças financeiras: “…houve um corte muito grande porque eu é que andava por fora … eu tirava o dobro do ordenado …” (Marido)

O acidente está sempre presente…
- “Ainda se está a passar … Ainda não está completamente … há coisas que nunca mais passam … eu lembro-me sempre do acidente porque … sempre que me ponho em pé lembro-me sempre do acidente … eu tenho sempre dores … se for na rua e houver muito barulho fico logo confuso e … mas como só oiço deste ouvido … fico confuso porque não sei de onde vem o barulho e às vezes tenho que estar à procura …” (Marido)

Como factores que ajudaram este casal, realçaram:
- Religião: “A Fé!.. É a Fé … nós todos os domingos íamos à missa …“ (Mulher)
- Filhos: “Eles têm-me dado muito apoio … Foi graças a Deus … que eu tenho dois filhos que são uma dádiva …” (Marido)
- Família: “Tivemo-nos uns aos outros… “ (Mulher)

Apesar de tudo este casal ainda consegue retirar aspectos positivos deste acidente:
- O positivo é estar vivo … estar cá … porque podia não estar cá e assim tou cá e é muito bom … mesmo … as incapacidades que eu tenho é muito bom tar cá … A vida é muito importante … É impressionante … uma pessoa passa por uma coisa destas e fica a dar muito mais valor à vida …” (Marido)

CASAL Y
Este casal está casado há 34 anos, tem um filho com 33 anos. O sinistrado tem 59 anos e era montador electromecânico, estando actualmente reformado em sequência do acidente, a esposa tem 59 anos e é escriturária.

Algumas informações sobre o acidente…
- Acidente: Electrocussão num quadro eléctrico
- Consequências físicas: Queimaduras de 2.ºgrau no tronco, mãos e braços, articulações afectadas
- Há quanto tempo foi: 30 meses
- Baixa: 730 dias
- % Incapacidade: 44,9

O acidente tem impacto, quer na mulher, quer nos filhos:
- Impacto na mulher: “Porque eu ia todos os dias assim «ah, como é que ele está?» - porque eu praticamente não comia. A minha roupa… caia-me, toda a agente, olhe era horrível. A única coisa que eu comia de manhã era uma peça de fruta porque só de pensar como é que ele estava só me dava vómitos. E não conseguia. Era uma situação tão grave que eu só vomitava...” (Mulher)
Impacto no filho: “… teve ali muito tempo até que visse o pai…” (Mulher)

O acidente produziu um conjunto de mudanças para o casal e para o sinistrado:
- Dificuldade em dormir: “… tenho problemas a dormir…” (Marido)
- Mudanças profissionais: “…houve mudanças… por exemplo, para mim, houve muitas. O meu dia-a-dia passou a ser diferente…se eu tivesse continuado a trabalhar, se isto não tivesse afectado…Eu iria fazer o mesmo que estava a fazer…Agora, a minha vida alterou. O meu dia-a-dia é completamente diferente…” (Marido)
- Irritabilidade: “O meu marido tem dias que está muito bem, mas tem dias que está muito irritado…” (Mulher)
- Intimidade: “… na vida particular, continuo a dormir sozinho, o que alterou um pouco …” (Marido)
- Cuidados: “…foi complicado. Porque houve uma altura em que eu tinha que lhe dar de comer. Cortar os alimentos…” (Mulher)

Como factores que ajudaram este casal, realçaram:
- Optimismo: “…o que tem contribuído é o facto de eu ser muito optimista e ver sempre o lado positivo das coisas…” (Marido)
- Religião: “… eu tenho muito fé. Ia à igreja…” (Mulher)
- Apoio do filho: “… está muito pegado a nós …” (Marido)

Apesar de tudo este casal ainda consegue retirar aspectos positivos deste acidente:
- “… agora estamos mais juntos, mais unidos do que estávamos antes. Porque antes havia o trabalho e tudo quase que não havia tempo para nada…“ (Marido)

Com este trabalho procurei destapar um pouco uma dimensão que tem vindo a ser esquecida…o acidente não termina com a alta… permanece nas vidas dos seus sinistrados e dos seus familiares.

Sónia Gonçalves