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O QUE É O STRESS? - Versão de Impressão

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O QUE É O STRESS? - Júlio Santos - 16-06-2008

Neste apontamento gostaria de abordar a questão do que é um stress e de que forma tem vindo a ser pensado na investigação. Fala-se muito e cada vez mais deste fenómeno mas muitas das vezes sem se saber do que é que se está a falar.

É sabido por todos que diariamente a vida das pessoas é marcada por centenas de acontecimentos que variam de magnitude, duração e impacto, mas que vão exigir uma capacidade de adaptação por parte destas. De facto, mais do que nunca, as pessoas deparam-se com a dura tarefa de terem que responder de forma adaptativa às frequentes ocorrências, e mudanças, não só do meio social contextual, mas também das resultantes do processo de desenvolvimento físico e psicológico individual. São estas mudanças que constituem muitas vezes situações de stress.

Definições e Perspectivas de Stress
O termo stress provém de verbo latino stringo, stringere, strinxi, strictum que significa: apertar, comprimir, restringir. A expressão existe na língua inglesa desde o século XIV, tendo sido utilizada durante bastante tempo, para exprimir uma pressão ou uma constricção de natureza física. Apenas no século XIX é que o conceito se alargou para passar a significar, também, as pressões que incidem sobre um órgão corporal ou sobre a mente humana.

Ao longo da história do estudo deste fenómeno foram sendo delineadas diferentes definições e formas de conceptualização do stress. Destaco três abordagens predominantes: perspectiva fisiológica, perspectiva do estímulo e perspectiva interaccionista.

Perspectiva fisiológica.
Um dos primeiros modelos explicativos do stress e que se enquadram numa perspectiva fisiológica/resposta, onde o stress é definido como a resposta geral do organismo perante qualquer estímulo ou situação stressante que ameacem o seu equilíbrio interno, resposta esta que passa sempre por reacções e activações fisiológicas (e.g. alterações hormonais), foi proposto por Selye em 1956. Este autor propunha que a resposta a todos os factores de stress, independentemente da sua natureza, envolvia três fases: a fase de alerta, a fase de resistência e a fase de exaustão.
A fase de alerta constitui o aviso claro da presença de um agente stressante, pelo que o organismo activa uma resposta rápida (com o aumento da adrenalina) que prepara o organismo para a reacção. Na fase de resistência, o organismo mobiliza as suas energias e capacidades para responder à ameaça, através dos seus meios de defesa fisiológicos, bioquímicos e psicológicos. Por fim, a fase de exaustão ocorre quando as reservas adaptativas se esgotam por motivos de encontros stressantes repetidos ou prolongados, sendo esta uma fase em que a resistência deixou de ser possível e o princípio das doenças pode ter lugar, caracterizando-se pela fadiga, ansiedade e depressão.

Perspectiva do estímulo.
Os investigadores que defendem uma lógica de estímulo, consideram o stress como sendo um estímulo proveniente do meio e que causa na pessoa uma reacção de deformação/ doença. Esta visão é defendida, por exemplo, por autores como Holmes e Rahe (1967), que afirmam que os factores stressantes são os acontecimentos importantes de vida (e.g. divórcio, morte do cônjuge, casamento), que requerem uma necessidade de adaptação do organismo, na sequência de um constrangimento, ameaça ou exigência que lhe é imposto. Esta adaptação será no sentido de restabelecer a normalidade, ou seja, o equilíbrio dinâmico do organismo humano e varia de acordo com as características individuais, personalidade, vulnerabilidade, entre outras.

Perspectiva interaccionista/ transaccional.
Numa perspectiva mais interaccionista/ transaccional, o stress resulta da interacção ou da relação entre aspectos do meio e da pessoa e, esta perspectiva, preconiza a existência de um processo de avaliação cognitiva de uma determinada situação e de uma “decisão” relativamente ao carácter mais ou menos ameaçador (e consequentemente stressor) dessa mesma situação. Portanto, esta lógica centra-se na avaliação individual de determinados acontecimentos exteriores, e na avaliação que é feita dos recursos individuais disponíveis para lidar com essa situação. Neste âmbito, o stress é encarado como um processo e traduz-se numa resposta multidimensional na sequência de uma avaliação cognitiva.
O modelo transaccional de stress de Lazarus e Folkman (1984) constitui uma das principais referências teóricas nesta área e, por isso, irei abordá-lo com mais detalhe. De acordo com estes autores, o stress pode ser conceptualizado como “a particular relationship between the person and the environment that is appraised by the person as taxing or exceeding his or her resources and endangering his or her well-being” (Lazarus e Folkman,1984, p.19), ou seja, uma situação indutora de stress é toda aquela em que a relação estabelecida entre o indivíduo e o meio ambiente é avaliada como excedendo os seus recursos prejudicando, por isso, o seu bem estar. Segundo este modelo, perante uma situação (ameaça potencial) um indivíduo será confrontado com uma sequência processual, que tem início na percepção da situação em causa, na sua avaliação e no desencadeamento de estratégias de adaptação para lhe fazer face. Esta concepção salienta, assim, uma dimensão cognitiva de classificação de uma determinada situação como ameaçadora (avaliação), que é seguida de um esforço cognitivo e comportamental para lidar com a situação de stress (coping).
Segundo os autores existem dois tipos de avaliação cognitiva: a avaliação primária, que consiste na avaliação do significado individual do acontecimento, ou seja, esta avaliação vai conduzir à classificação dos acontecimentos como irrelevantes, positivos ou ameaçadores; e a avaliação secundária, que ocorre quando um acontecimento é considerado ameaçador e consiste na análise dos recursos disponíveis para enfrentar essa situação. Estes dois tipos de avaliação vão conduzir a respostas fisiológicas (e.g. aumento do ritmo cardíaco), cognitivas (e.g. crenças sobre as consequências de um acontecimento), emocionais (e.g. medo) e comportamentais (e.g. fuga) de stress. Se um determinado acontecimento for considerado como ameaçador na avaliação primária e se os recursos existentes para lidar com a situação forem considerados insuficientes na avaliação secundária, esta constatação conduzirá ao desenvolvimento de esforços individuais no sentido de lidar com a situação eliminando, reduzindo ou evitando a ameaça. Este é o chamado processo de coping definido por Lazarus e Folkman (1984, p.20) como: “as a constantly changing cognitive and behavioral efforts to manage specific external and/ or internal demands that are appraised as taxing or exceeding the resources of the person”.
As formas de lidar com o stress vão “materializar-se” naquilo a que se chamam as estratégias de coping, que consistem em formas práticas de fazer face às situações ameaçadoras, podendo distinguir-se dois tipos de estratégias de coping: resolução de problemas, que são formas de lidar com o stress centradas no problema e que implicam o desenvolvimento de acções no sentido de eliminar, prevenir ou reduzir a ameaça; e regulação emocional, que são formas de lidar com o stress centradas nas emoções, como por exemplo, a negação ou a minimização da ameaça. No entanto, esta última estratégia faz com que os problemas se acumulem e, a longo prazo pode tornar-se numa estratégia disfuncional.
Perspectiva fisiológica – o stress são os movimentos do elástico, ou seja, a resposta ao manuseamento
Perspectiva do estímulo – o stress é o manuseamento do elástico, ou seja, o estímulo que faz o elástico movimentar-se
Perspectiva interaccionista – o stress é quando esticamos o elástico mais do que a sua capacidade de elasticidade (esta é a abordagem mais aceite actualmente)

PARA VER A REPRESENTAÇÃO CONSULTE: http://www.juliosantos.net
Representação esquemática do Modelo Interaccionista de Lazarus e Folkman (1984)

Em suma, segundo este modelo o stress é um processo individualizado resultante da interacção entre características ambientais e pessoais. Este modelo de stress e coping valoriza o papel activo do indivíduo enquanto agente (e não apenas objecto): (1) de avaliação da situação que viveu (i.e., é o que explica que um mesmo acontecimento possa ser avaliado por algumas pessoas como irrelevante e por outras como ameaçador); e, (2) de avaliação dos recursos disponíveis para lidar com a situação.

Pensem num elástico a ser manuseado por uma pessoa:

Sónia Gonçalves