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Fogo do Chiado - 20 anos depois
#1
Nota introdutória do Editor
Como já tínhamos anunciado vamos encerrar este tópico sobre “Bombeiros”. Mas vamos encerrá-lo com chave-de-ouro. Hoje que passam 20 anos sobre o fogo do Chiado, publicamos um texto de um dos Bombeiros que esteve presente nesse “fogo-de-arder”.
Segundo o autor o seu texto é uma homenagem aos Bombeiros que evitaram que a catástrofe fosse maior. Esse é também o nosso objectivo ao publicar este texto; homenagear todos os Bombeiros que há 20 estiveram naquele inferno.
Júlio Santos


25 de Agosto de 1988 – Vinte anos depois - por Fernando Marques
Uma data que para muitos nada significa, mas que outros nunca esquecerão. Curiosamente nessa noite estava a dormir profundamente, o que já não acontecia á algum tempo, o telefone entendeu dar-nos descanso (de referir que na altura, integrava a equipa médica de serviço numa empresa de serviços médicos).
No meio do sono fui sacudido de forma brusca, pelo telefonista de serviço que dizia "vai ao telefone uma senhora quer falar contigo", Bolas, pensei, quem será?
Quando atendi, conheci de imediato a voz da operadora da central dos bombeiros que me disse: "Vêm depressa para o quartel, que o Chiado está a arder!"
Respondi: Ok, estou a caminho, entretanto pensei, Chiado?? – Quando olhei da janela do 6º andar da Rua Luciano Cordeiro, vi um enorme clarão, que se destacava na escuridão da noite, e disse: É pá, que grande incêndio! Nesse momento tive a exacta noção do que se estava a passar, se antes estava meio adormecido, ai de certeza absoluta que acordei.
Peguei nas chaves do carro, e desci a Rua do Conde Redondo, em direcção á Av. da Liberdade, não havia viaturas a circular, e parecia que todos os semáforos tinham combinado em abrir um corredor para mim, em poucos minutos chegava ao quartel, a tempo de ver sair o "14" um A.P.S.- Auto Pronto Socorro de Marca Bedford,( hoje em dia a designação seria VUCI – Viatura Urbana de Combate a Incêndios), todos os alarmes do quartel tocavam continuamente, ao que se juntou a sirene do "14", os meus colegas ainda gritaram " Está cheio, vais no seguinte, hehehe. Riram-se. Não sabiam o que os esperava. Respondi: É de arder! (termo que usávamos para um grande incêndio").
Dirigi-me à CRT – Central Rádio Telefónica, para dar a minha entrada e para dizer que fizessem chamada geral, pois o fogo era de arder, e até ao momento só estavam a chamar os elementos que estavam na envolvente do quartel.
Dirigi-me ao 4º andar, às instalações do Serviço de Saúde (Departamento que chefiava), onde recolhi tudo o que achei que iria fazer falta para reforçar o já existente nas ambulâncias (á data, o nosso nível de equipamento por viatura era já de alguma qualidade, e todas as viaturas eram padrão e possuíam meios para suporte básico de vida). Felizmente tudo isto não foi necessário, pois tirando pequenas escoriações e ligeiras abrasões e algumas intoxicações por inalação, nada de grave ocorreu.
A viatura seguinte a sair foi uma ambulância por mim conduzida, enquanto descia a Av. da Liberdade, deserta e escura, onde já cheirava a queimado, apercebi-me que outras viaturas de combate vinham do Marques de Pombal. Quando entrei no Rossio o cenário era dantesco, a rua do Ouro plena de fumo, onde as labaredas emanadas do Armazém Grandela, pareciam espadas a rasgar o céu. Na rua do Ouro, em pleno teatro de operações estava já a nossa 1ª viatura a chegar um (Dodge-Pierce), era o piquete da noite, após alguma troca de impressões, foi decidido dividir-nos em dois grupos (um permanecia na rua do ouro, enquanto o outro iria tentar travar a progressão do incêndio na rua do crucifixo. Começamos a estabelecer a progressão com duas linhas de água de 50m/m, entretanto juntaram-se a nós outros elementos de um CBV - Corpo de Bombeiros Voluntários. Tirando o aspecto da visibilidade ser nula e quase não conseguirmos respirar, as viseiras permaneciam cerradas (como que se isso adianta-se alguma coisa), não disponhamos de equipamento de protecção individual. A dada altura uma explosão sacudiu tudo e todos, fomos projectados pelo ar, como folhas ao sabor do vento, deixamos de ver e parecia que o ar tinha acabado, doía-me o corpo todo e principalmente os ouvidos, pareciam que se tinham fechado. Quando a cinza assentou vi que uns tinham perdido a mangueira que rodopiava, molhando-nos e arrefecendo. Conseguiram recuperar a mangueira e começamos a tentar a apagar um foco na viatura que tinha explodido. Chegaram outros elementos atraídos pela explosão, que falavam qualquer coisa, mas que eu não ouvia (os ouvidos pareciam não recuperar) até que percebi "estão bem?"- sabia lá, ainda estava zonzo. Mudei de local, passei para a rua do ouro para uma auto-escada mecânica, onde passei horas sem fim. Estávamos 3 elementos, com uma mangueira de 70m/m. trocávamos de posição quando os braços ou pernas já não aguentavam. Até que um dos elementos perguntou: "que horas são?"- respondi: sei lá, para ai meio-dia! O outro elemento disse-me: "faz sinal para subir outro e desce e vê se nos podem ir rendendo". Assim fiz, comecei a descer trocando com outro que subia, quando cheguei junto do motorista e perguntando as horas, resposta: "quase cinco", tinham-se passado perto de 12 horas! Estava arrasado.
Permanecemos dias no teatro de operações, chegamos a ser deslocados para outros sinistros, inclusive nos arredores de Lisboa. Muitos outros poderiam relatar factos ocorridos, e mais interessantes, dariam certamente para escrever livros com largas centenas de páginas. Dos elementos especializados de intervenção que estiveram envolvidos directa ou indirectamente no Fogo do Chiado, alguns já faleceram, outros já não estão no activo, mas uma certeza porém ficou todos actuaram de forma digna e destemida, que permitiu a extinção, daquele que até hoje foi considerado o maior incêndio do século XX, na Cidade de Lisboa. Recebemos louvores, fomos apelidados de heróis, mas tudo isso se diluiu no tempo, resta-nos as fotos, vídeos e recortes de jornais, que alguns ainda possuem. Os que estiveram no teatro de operações guardam no fundo da alma, as imagens não captadas pelos média, os medos sentidos, as lágrimas e suor derramados, as cicatrizes não visíveis e que marcam a alma.
Esta é uma homenagem a todos os envolvidos, no Grande Incêndio do Chiado, tragédia que esperamos não se repita, porque pelos vistos a Cidade de Lisboa, não aprendeu que:
25 de Agosto de 1988 – Vinte anos depois
Uma data que para muitos nada significa, mas que outros nunca esquecerão. Curiosamente nessa noite estava a dormir profundamente, o que já não acontecia á algum tempo, o telefone entendeu dar-nos descanso (de referir que na altura, integrava a equipa médica de serviço numa empresa de serviços médicos).
No meio do sono fui sacudido de forma brusca, pelo telefonista de serviço que dizia "vai ao telefone uma senhora quer falar contigo", Bolas, pensei, quem será?
Quando atendi, conheci de imediato a voz da operadora da central dos bombeiros que me disse: "Vêm depressa para o quartel, que o Chiado está a arder!"
Respondi: Ok, estou a caminho, entretanto pensei, Chiado?? – Quando olhei da janela do 6º andar da Rua Luciano Cordeiro, vi um enorme clarão, que se destacava na escuridão da noite, e disse: É pá, que grande incêndio! Nesse momento tive a exacta noção do que se estava a passar, se antes estava meio adormecido, ai de certeza absoluta que acordei.
Peguei nas chaves do carro, e desci a Rua do Conde Redondo, em direcção á Av. da Liberdade, não havia viaturas a circular, e parecia que todos os semáforos tinham combinado em abrir um corredor para mim, em poucos minutos chegava ao quartel, a tempo de ver sair o "14" um A.P.S.- Auto Pronto Socorro de Marca Bedford,( hoje em dia a designação seria VUCI – Viatura Urbana de Combate a Incêndios), todos os alarmes do quartel tocavam continuamente, ao que se juntou a sirene do "14", os meus colegas ainda gritaram " Está cheio, vais no seguinte, hehehe. Riram-se. Não sabiam o que os esperava. Respondi: É de arder! (termo que usávamos para um grande incêndio").
Dirigi-me à CRT – Central Rádio Telefónica, para dar a minha entrada e para dizer que fizessem chamada geral, pois o fogo era de arder, e até ao momento só estavam a chamar os elementos que estavam na envolvente do quartel.
Dirigi-me ao 4º andar, às instalações do Serviço de Saúde (Departamento que chefiava), onde recolhi tudo o que achei que iria fazer falta para reforçar o já existente nas ambulâncias (á data, o nosso nível de equipamento por viatura era já de alguma qualidade, e todas as viaturas eram padrão e possuíam meios para suporte básico de vida). Felizmente tudo isto não foi necessário, pois tirando pequenas escoriações e ligeiras abrasões e algumas intoxicações por inalação, nada de grave ocorreu.
A viatura seguinte a sair foi uma ambulância por mim conduzida, enquanto descia a Av. da Liberdade, deserta e escura, onde já cheirava a queimado, apercebi-me que outras viaturas de combate vinham do Marques de Pombal. Quando entrei no Rossio o cenário era dantesco, a rua do Ouro plena de fumo, onde as labaredas emanadas do Armazém Grandela, pareciam espadas a rasgar o céu. Na rua do Ouro, em pleno teatro de operações estava já a nossa 1ª viatura a chegar um (Dodge-Pierce), era o piquete da noite, após alguma troca de impressões, foi decidido dividir-nos em dois grupos (um permanecia na rua do ouro, enquanto o outro iria tentar travar a progressão do incêndio na rua do crucifixo. Começamos a estabelecer a progressão com duas linhas de água de 50m/m, entretanto juntaram-se a nós outros elementos de um CBV - Corpo de Bombeiros Voluntários. Tirando o aspecto da visibilidade ser nula e quase não conseguirmos respirar, as viseiras permaneciam cerradas (como que se isso adianta-se alguma coisa), não disponhamos de equipamento de protecção individual. A dada altura uma explosão sacudiu tudo e todos, fomos projectados pelo ar, como folhas ao sabor do vento, deixamos de ver e parecia que o ar tinha acabado, doía-me o corpo todo e principalmente os ouvidos, pareciam que se tinham fechado. Quando a cinza assentou vi que uns tinham perdido a mangueira que rodopiava, molhando-nos e arrefecendo. Conseguiram recuperar a mangueira e começamos a tentar a apagar um foco na viatura que tinha explodido. Chegaram outros elementos atraídos pela explosão, que falavam qualquer coisa, mas que eu não ouvia (os ouvidos pareciam não recuperar) até que percebi "estão bem?"- sabia lá, ainda estava zonzo. Mudei de local, passei para a rua do ouro para uma auto-escada mecânica, onde passei horas sem fim. Estávamos 3 elementos, com uma mangueira de 70m/m. trocávamos de posição quando os braços ou pernas já não aguentavam. Até que um dos elementos perguntou: "que horas são?"- respondi: sei lá, para ai meio-dia! O outro elemento disse-me: "faz sinal para subir outro e desce e vê se nos podem ir rendendo". Assim fiz, comecei a descer trocando com outro que subia, quando cheguei junto do motorista e perguntando as horas, resposta: "quase cinco", tinham-se passado perto de 12 horas! Estava arrasado.
Permanecemos dias no teatro de operações, chegamos a ser deslocados para outros sinistros, inclusive nos arredores de Lisboa. Muitos outros poderiam relatar factos ocorridos, e mais interessantes, dariam certamente para escrever livros com largas centenas de páginas. Dos elementos especializados de intervenção que estiveram envolvidos directa ou indirectamente no Fogo do Chiado, alguns já faleceram, outros já não estão no activo, mas uma certeza porém ficou todos actuaram de forma digna e destemida, que permitiu a extinção, daquele que até hoje foi considerado o maior incêndio do século XX, na Cidade de Lisboa. Recebemos louvores, fomos apelidados de heróis, mas tudo isso se diluiu no tempo, resta-nos as fotos, vídeos e recortes de jornais, que alguns ainda possuem. Os que estiveram no teatro de operações guardam no fundo da alma, as imagens não captadas pelos média, os medos sentidos, as lágrimas e suor derramados, as cicatrizes não visíveis e que marcam a alma.
Esta é uma homenagem a todos os envolvidos, no Grande Incêndio do Chiado, tragédia que esperamos não se repita, porque pelos vistos a Cidade de Lisboa, não aprendeu que:
O ACIDENTE EXISTE ONDE A PREVENÇÃO FALHA
Fernando Marques

A visitar
http://sic.aeiou.pt/online/noticias/pais...do+chiado/[/url]
Sou, com cordiais cumprimentos
Júlio Santos
Responder


Mensagem neste Tópico
Fogo do Chiado - 20 anos depois - por Júlio Santos - 25-08-2008, 10:13 AM
Fogo do Chiado - 20 anos depois - por Miguel Silva - 25-08-2008, 11:18 AM
RE: Fogo do Chiado - 20 anos depois - por Che - 25-08-2008, 05:03 PM

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