25-08-2008, 05:03 PM
Não podia deixar passar o dia sem partilhar convosco esse fatídico dia 25 de Agosto de 1988, nessa altura já ruía o “bichinho” dos Bombeiros, tinha concluído a minha recruta no ano anterior, acreditava saber muito de bombeiros, hoje volvidos 20 anos estou consciente que sabemos sempre pouco quando nos confrontamos com catástrofes desta dimensão.
Nessa manhã de 25 de Agosto estava previsto sair de Lisboa bem sedo, apanhar o barco para o Barreiro, posteriormente o comboio para Faro, trabalhava na Tep-Clima e se a memória não me falha ia para o aeroporto de Faro, quando cheguei a Praça do Comercio escusado será dizer, nessa manhã, nada mais importante para mim do que viver de perto esse “fogo”.
Tirei o azimute e fui direitinho ao Chiado, recordo que aquela hora ainda era pouco o policiamento e não estava traçado perímetro de segurança, mesmo assim fui barrado por um guarda da P.S.P, facilmente após identificar-me com o meu cartão de Bombeiro, que ainda guardo religiosamente, passei a primeira e única barreira.
Passei parte do tempo no largo do Carmo, recordo que a determinada altura estive na cobertura de um edifício contíguo e ali permaneci uma eternidade em cima de uma mangueira de 70mm com uma agulheta de ponteira a debitar água, o ponto era favorável dava para ver que de tudo que era janela ou cobertura havia uma ou mais agulhetas a projectar água. O cenário era assustador, era um novato pouco sabia de incêndios, mas aquele incêndio era garantidamente um grande incêndio, um fogo que destruía um riquíssimo património histórico em pleno coração de Lisboa.
A determinada altura e talvez porque nada me identificava como Bombeiro fui substituído por um Bombeiro uniformizado, usava uma farda de cotim, um capacete e umas botas militares, nada mais o protegia, o capacete em boa verdade no ponto onde nos encontrávamos de pouco servia, acabava por dificultar, como não tinha aparelho respiratório o fumo ficava retido no interior da viseira, dificultando a visibilidade e a respiração.
No largo do Carmo restabeleci energias numa tenda da Cruz Vermelha, limparam-me os olhos e bebi água ou leite, não me recordo.
A determinada altura aconteceu um episodio caricato, houve a intenção de retirar o recheio do laboratório da Escola Veiga Beirão, sendo um laboratório e com o aproximar do fogo, era importante salvaguardar o que ali existia, foram mobilizados para a tarefa alguns militares da GNR, que tinham vindo do quartel ali ao lado, vestindo fatos de macaco e bivaques na cabeça, lá foram juntamente com um possível funcionário da escola, e eu, é claro lá fui ordeiramente ajudar, a determinada altura houve um “idiota”, idiota porque teve uma excelente ideia, virou as secretarias de pernas para o ar e improvisando padiolas, lá fomos dois a dois acartando microscópios, lamparinas, tubos de ensaio e outros matérias de laboratório, tudo muito bonito, se não fosse que cada vez que se ouvia uma explosão ou um qualquer barulho suspeito, largava-se de imediato a “padiola” e “pernas que te querem dali para fora”, só parávamos no exterior da escola, foram algumas as coisas que ficaram reduzidas a cacos, se bem me lembro o “fogo” poupou a Escola Veiga Beirão.
Para terminar o dia em beleza, estava na Rua do Ouro, todo enfarruscado quando chegou junto de mim um companheiro de armas (bombeiro da minha recruta), o Zé Victor, era auxiliar no hospital de Alcoitão e vinha do trabalho e passou ali para ver ao vivo e a cores o que acompanhou ao longo do dia pela televisão.
Ali ficamos a falar, a determinada altura recordo ter-lhe contado que a meio da manhã a Policia tinha apanhado um indivíduo que se fizera passar por bombeiro e aproveitou a ocasião para meter ao bolso alguns objectos de interesse. Parte desta conversa foi intersectada por dois agentes da polícia a paisana que ali se encontravam especados como nós, sem perguntarem de quem eu era filho, lá vai disto, riparam do “crachá” e vai de nos levar para a esquadra, lá fomos a pé para a Esquadra da Praça da Alegria, pelo caminho como não parava de reclamar, levei um valente sopapo. Na esquadra e após esclarecer o mal entendido e reconhecido o meu empenho como voluntário sem farda, a porta da esquadra estava um polícia grande e ruivo o que chamam de cenoura, que terminou a conversa da seguinte maneira “ah! Boçê lebou nas bentas, isso é tão certo como dois e dois serem quatro”.
Assim foi o meu dia 25 de Agosto de 1988, hoje arrepio-me quando leio ou vejo algo alusivo ao fogo do Chiado, mas também quando recordo as padiolas improvisadas e o sopapo que levei, é claro tenho que rir.
Passados 20 anos muito mudou, a formação melhorou, a protecção dos bombeiros é uma prioridade, os equipamentos e meios de combate desenvolveram, mas parece-me que a filosofia em relação as zonas velhas da cidade pouco alterou e a qualquer momento podemos ter outro “Incêndio do Chiado”
Um grande Abraço a todos os Bombeiros e amigos que vivem com intensidade estes problemas.
Luís Guimarães
Lisboa, 25 de Agosto de 2008
Nessa manhã de 25 de Agosto estava previsto sair de Lisboa bem sedo, apanhar o barco para o Barreiro, posteriormente o comboio para Faro, trabalhava na Tep-Clima e se a memória não me falha ia para o aeroporto de Faro, quando cheguei a Praça do Comercio escusado será dizer, nessa manhã, nada mais importante para mim do que viver de perto esse “fogo”.
Tirei o azimute e fui direitinho ao Chiado, recordo que aquela hora ainda era pouco o policiamento e não estava traçado perímetro de segurança, mesmo assim fui barrado por um guarda da P.S.P, facilmente após identificar-me com o meu cartão de Bombeiro, que ainda guardo religiosamente, passei a primeira e única barreira.
Passei parte do tempo no largo do Carmo, recordo que a determinada altura estive na cobertura de um edifício contíguo e ali permaneci uma eternidade em cima de uma mangueira de 70mm com uma agulheta de ponteira a debitar água, o ponto era favorável dava para ver que de tudo que era janela ou cobertura havia uma ou mais agulhetas a projectar água. O cenário era assustador, era um novato pouco sabia de incêndios, mas aquele incêndio era garantidamente um grande incêndio, um fogo que destruía um riquíssimo património histórico em pleno coração de Lisboa.
A determinada altura e talvez porque nada me identificava como Bombeiro fui substituído por um Bombeiro uniformizado, usava uma farda de cotim, um capacete e umas botas militares, nada mais o protegia, o capacete em boa verdade no ponto onde nos encontrávamos de pouco servia, acabava por dificultar, como não tinha aparelho respiratório o fumo ficava retido no interior da viseira, dificultando a visibilidade e a respiração.
No largo do Carmo restabeleci energias numa tenda da Cruz Vermelha, limparam-me os olhos e bebi água ou leite, não me recordo.
A determinada altura aconteceu um episodio caricato, houve a intenção de retirar o recheio do laboratório da Escola Veiga Beirão, sendo um laboratório e com o aproximar do fogo, era importante salvaguardar o que ali existia, foram mobilizados para a tarefa alguns militares da GNR, que tinham vindo do quartel ali ao lado, vestindo fatos de macaco e bivaques na cabeça, lá foram juntamente com um possível funcionário da escola, e eu, é claro lá fui ordeiramente ajudar, a determinada altura houve um “idiota”, idiota porque teve uma excelente ideia, virou as secretarias de pernas para o ar e improvisando padiolas, lá fomos dois a dois acartando microscópios, lamparinas, tubos de ensaio e outros matérias de laboratório, tudo muito bonito, se não fosse que cada vez que se ouvia uma explosão ou um qualquer barulho suspeito, largava-se de imediato a “padiola” e “pernas que te querem dali para fora”, só parávamos no exterior da escola, foram algumas as coisas que ficaram reduzidas a cacos, se bem me lembro o “fogo” poupou a Escola Veiga Beirão.
Para terminar o dia em beleza, estava na Rua do Ouro, todo enfarruscado quando chegou junto de mim um companheiro de armas (bombeiro da minha recruta), o Zé Victor, era auxiliar no hospital de Alcoitão e vinha do trabalho e passou ali para ver ao vivo e a cores o que acompanhou ao longo do dia pela televisão.
Ali ficamos a falar, a determinada altura recordo ter-lhe contado que a meio da manhã a Policia tinha apanhado um indivíduo que se fizera passar por bombeiro e aproveitou a ocasião para meter ao bolso alguns objectos de interesse. Parte desta conversa foi intersectada por dois agentes da polícia a paisana que ali se encontravam especados como nós, sem perguntarem de quem eu era filho, lá vai disto, riparam do “crachá” e vai de nos levar para a esquadra, lá fomos a pé para a Esquadra da Praça da Alegria, pelo caminho como não parava de reclamar, levei um valente sopapo. Na esquadra e após esclarecer o mal entendido e reconhecido o meu empenho como voluntário sem farda, a porta da esquadra estava um polícia grande e ruivo o que chamam de cenoura, que terminou a conversa da seguinte maneira “ah! Boçê lebou nas bentas, isso é tão certo como dois e dois serem quatro”.
Assim foi o meu dia 25 de Agosto de 1988, hoje arrepio-me quando leio ou vejo algo alusivo ao fogo do Chiado, mas também quando recordo as padiolas improvisadas e o sopapo que levei, é claro tenho que rir.
Passados 20 anos muito mudou, a formação melhorou, a protecção dos bombeiros é uma prioridade, os equipamentos e meios de combate desenvolveram, mas parece-me que a filosofia em relação as zonas velhas da cidade pouco alterou e a qualquer momento podemos ter outro “Incêndio do Chiado”
Um grande Abraço a todos os Bombeiros e amigos que vivem com intensidade estes problemas.
Luís Guimarães
Lisboa, 25 de Agosto de 2008

