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STRESS PROFESSIONAL EM CONTEXTO POLICIAL
#1
No apontamento deste mês gostaria de partilhar um estudo que fiz numa instituição policial portuguesa, com o objectivo de conhecer quais as fontes de stress presentes neste contexto profissional.

Stress Profissional
O stress associado ao trabalho, é um dos problemas mais preocupantes provenientes da industrialização e da tecnologia moderna, constituindo uma área de estudo e investigação prioritária, nomeadamente, pelos seus efeitos, não só a nível individual, mas também a nível organizacional, dado que pode colocar em causa a produtividade de uma organização.
Cardoso e colegas (2002) referem que o termo stress ocupacional designa as relações de stress que têm lugar no contexto das ocupações profissionais. O stress traduz “a inter-acção das condições de trabalho com as características do trabalhador de tal modo que as exigências que lhe são criadas ultrapassam a sua capacidade em lidar com elas” (Ross e Altmaier, 1994, p. 12).

Stress Profissional na polícia
O estudo do stress profissional na polícia insere-se numa tradição mais alargada de investigação geral sobre stress, designadamente profissional, que tipicamente se tem debruçado sobre os profissionais de risco, como os controladores de tráfego aéreo, os médicos e enfermeiros dos serviços de urgência, os professores e os polícias (Gold e Roth, 1993). No entanto, apesar desta tradição, a verdade é que têm sido realizados muitos estudos sobre stress profissional sendo, no entanto, raros os estudos no contexto militar e policial (Dobreva-Martinova, Villeneuve, Strickland e Matheson, 2002).

Em todas as profissões pode existir stress, mas no caso específico da polícia, este pode ser mais frequente, pela própria natureza específica do trabalho policial, uma vez que este grupo profissional se depara com situações muito especiais durante o exercício da sua profissão, as quais produzem uma série de tensões psicológicas que podem levar a consequências negativas (Territo e Vetter, 1981).
Têm sido realizados diversos estudos (ex.: Cooper, 1997) com o objectivo de listar as profissões mais stressantes e menos stressantes. De forma consistente a função policial é uma das ocupações profissionais que tem sido associada a níveis de stress mais elevados.

[color]Stress Profissional na polícia: Fontes de stress[/color]
Têm vindo a ser realizadas diversas investigações, especialmente no contexto americano e brasileiro, com o objectivo de conhecer as fontes de stress específicas destes profissionais. No quadro seguinte é possível ver um resumo dos resultados de alguns desses estudos.


1.1.1.1 Autor (Ano) 1.1.1.2 Fontes de Stress Identificadas em Contexto Policial
1.1.1.3 Lad Burgin (1978) - Fontes de stress controláveis; Fontes de stress não controláveis
1.1.1.4 Davidson & Veno (1980) - Carga administrativa e burocrática do trabalho; Gestão “pobre”; Falta de comunicação; Pouca participação na tomada de decisão; Relações com a comunidade; Relações superiores e subordinados
1.1.1.5 Eden (1982)1.1.1.6 - Stressores crónicos que estão a pressionar constantemente os polícias; Stressores agudos que persistem curtos períodos de tempo
1.1.1.7 Arsenault & Dolan (1983) - Stressores de contexto de trabalho; Stressores de conteúdo de trabalho
1.1.1.8 Greller, Parsons & Mitchell (1992) - Factores associados à rotina do trabalho; Factores externos à organização policial; Factores de gestão da instituição; Factores de trabalho extremo
1.1.1.9 Brown & Campbell (1994) - Aspectos genéricos internos à organização (ex.: a excessiva carga de trabalho); Aspectos genéricos de fontes externas estão relacionados com a interacção com a comunidade; Aspectos específicos de fontes internas correspondem às tarefas operacionais da polícia; Aspectos específicos de fontes externas relacionados com as interacções com o sistema de justiça criminal
1.1.1.10 Brown, Cooper & Kirkcaldy (1996) - Excesso de trabalho; Incompetência dos colegas; Recursos insuficientes; Falta de serem consultados; Administração mundana; Falta de controlo sobre as situações; Estrutura organizacional; Clima da organização; Conflito no trabalho; Horário prolongado
1.1.1.11 Leonardo (1996) - Sobrecarga de trabalho; Responsabilidade; Frustração profissional; Rotina; Ambiguidade e dificuldade da função policial; Situações inesperadas; Exposição ao perigo físico
1.1.1.12 Stevens (1999) - Crianças abusadas e agredidas; Matar ou ferir pessoas inocentes; Conflito com a regulamentação; Matar ou ferir um colega; Chamadas de violência doméstica; Morte ou ferimento de um colega; Terrorismo; Pouco apoio por parte dos superiores; Controlar tumultos; Desrespeito da população; Indivíduos barricados; Trabalho por turnos; Prender pessoas
1.1.1.13 Magalhães, Fonseca & Bruto da Costa (1999) - Relações internas com colegas e superiores; Confronto com a violência; Relação com o ambiente externo; Dor/morte (situações de morte e sofrimento)
1.1.1.14 Kirschman (2000) - Treino inadequado; Supervisão, liderança e equipamentos deficientes; Distribuição injusta do trabalho e dos turnos; Remuneração e conhecimentos inadequados; Pouca comunicação; Falta de apoio por parte dos superiores; Favoritismo; Falta de clareza e de feedback sobre o papel; Expectativas e responsabilidades de cada um; Imprevisibilidade do trabalho; Possibilidade de ser ferido; Excesso de trabalho
1.1.1.15 Pienaar & Rothmann (2003) - Exigências do trabalho; Falta de recursos; Stressores inerentes à polícia
1.1.1.16 Marques, Moraes, Pinal da Costa & Ferreira (2003) - Carga de trabalho cumprida pelo indivíduo; Inter-relacionamento no ambiente de trabalho; Equilíbrio entre a vida pessoal e profissional; Falta de possibilidade de crescimento; Clima organizacional; Exigências do ambiente de trabalho



Em estudo em contexto português: Fontes de stress na polícia
O estudo que realizei, sob a orientação do Professor José Neves, tinha por objectivo conhecer as fontes de stress dos polícias. A amostra em estudo era constituída por 355 elementos de uma força policial portuguesa. Na tabela seguinte é possível observar uma descrição mais detalhada da amostra em estudo.

Freq. %
Sexo
Feminino 19 5.5
Masculino 324 94.5
N 343 100.0
Idade
Menos de 25 anos 69 21.0
Entre 25 e 35 anos 123 37.5
Entre 36 e 45 anos 86 26.2
Mais de 45 anos 50 15.2
N 328 100.0
Estado civil
Solteiro/a, Divorciado/a, Viúvo/a 114 33.4
Casado/a, União de Facto 227 66.6
N 341 100.0
Existência de filhos
Sim 182 54.0
Não 155 46.0
N 337 100.0
Habilitações literárias (completas)
Menos ou igual ao 9.º ano 188 53.0
Mais do que 9.º ano 167 47.0
N 355 100.0
Número de anos de serviço
Menos de 5 anos 126 35.5
Entre 5-15 anos 91 25.6
Mais de 15 anos 138 38.9
N 355 100.0
Função actual
Operacional 241 68.7
Administrativo/ apoio 110 31.3
N 351 100.0


Através da revisão de literatura científica e da realização de entrevistas com polícias, construímos um questionário com sete fontes de stress:
 Gestão interna relacionada com a falta de recursos e de apoio a diferentes níveis (e.g. “Recursos materiais insuficientes”)
 Actuação operacional relativa à função operacional e ao facto de envolver especificamente a necessidade de recorrer a meios extraordinários no cumprimento das suas funções (ex.: “Ter que fazer uso da força”)
 Conciliação trabalho-família que destaca as questões relacionadas com a compatibilização das exigências da profissão e da vida familiar (ex.: “Passo mais horas no trabalho do que em casa”)
 Exigências do ambiente de trabalho relacionadas com uma série de exigências e situações com as quais os polícias se deparam (ex.: “Novos métodos de trabalho”)
 Reconhecimento essencialmente relacionado com o reconhecimento da função e do profissional (ex.: “Tenho que fazer tudo e ainda sou acusado de não cumprir o meu dever”)
 Ambiguidade de papel (ex.: “A existência de incertezas quanto às minhas responsabilidades”)
 Relações interpessoais com os colegas (ex.: “Falta de coesão e espírito de grupo no meu local de trabalho”).
Os resultados deste estudo revelam que os principais factores de stress nos polícias inquiridos estão relacionados, por um lado, com a gestão interna da Instituição, ou seja, com a falta de recursos e apoios a diferentes níveis e, por outro lado, com os conflitos que provêm da conciliação do trabalho com a família.
Fontes de Stress (Factores) Média Desvio Padrão
Gestão interna 3.54 0.90
Actuação operacional 3.03 1.02
Conciliação trabalho-família 3.30 0.99
Exigências do ambiente de trabalho 2.87 0.84
Reconhecimento/ Imagem social 2.99 1.08
Ambiguidades e incertezas 3.04 0.96
Relações interpessoais 2.71 1.14

Cada vez mais as organizações têm que procurar gerir eficazmente os seus recursos, bem como encontrar estratégias de conciliação trabalho-família. Em suma, a investigação futura e as organizações têm pela frente um desafio enorme em termos do aprofundar da problemática do stress e sua relação com as atitudes e comportamento do trabalhador. Não existem respostas nem consequências lineares face ao stress quotidiano nas organizações. O desafio parece estar em desvendar as variantes da natureza humana, em particular da resiliência ao stress, conjugando investigação e intervenção que contextualiza o indivíduo enquanto sistema de relações no contexto organizacional, familiar e social.


Fonte: http://almadepolicia.blogspot.com/2008/0...dadas.html
Sónia Gonçalves
Sou, com cordiais cumprimentos
Júlio Santos
Responder


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